Sobre vida eterna e galardão
De acordo com a palavra de Deus, sabemos que a salvação é um dom gratuito de Deus, concedido através da fé em Jesus Cristo, independente de nossas obras:
João 5:24. — Em verdade, em verdade lhes digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida.
Romanos 6:23. Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor.
Gálatas 2:16. sabendo, contudo, que o homem não é justificado por obras da lei, e sim mediante a fé em Jesus Cristo, também temos crido em Cristo Jesus, para que fôssemos justificados pela fé em Cristo e não por obras da lei, pois por obras da lei ninguém será justificado.
Efésios 2:8. Porque pela graça vocês são salvos, mediante a fé; e isto não vem de vocês, é dom de Deus; 9. não de obras, para que ninguém se glorie.
Tito 3:4. Mas quando se manifestou a bondade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor por todos, 5 ele nos salvou, não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo a sua misericórdia. Ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo, 6 que ele derramou sobre nós ricamente, por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador,
No entanto, o galardão que recebemos no mundo vindouro está relacionado às obras que fazemos em obediência a Deus, e diferentes cristãos receberão (ou não!) diferentes níveis de galardão, de acordo com as suas obras:
1 Coríntios 3:11. Porque ninguém pode colocar outro alicerce além do que já está posto, que é Jesus Cristo. 12. Se alguém constrói sobre esse alicerce, usando ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno ou palha, 13. sua obra será mostrada, porque o Dia a trará à luz; pois será revelada pelo fogo, que provará a qualidade da obra de cada um. 14. Se o que alguém construiu permanecer, esse receberá recompensa. 15. Se o que alguém construiu se queimar, esse sofrerá prejuízo; contudo, será salvo como alguém que escapa através do fogo.
1 Coríntios 4:1. Assim, pois, importa que todos nos considerem como ministros de Cristo e encarregados dos mistérios de Deus. 2. Ora, além disso, o que se requer destes encarregados é que cada um deles seja encontrado fiel. 3. Mas a mim pouco importa ser julgado por vocês ou por um tribunal humano; nem eu julgo a mim mesmo. 4. Porque a consciência não me acusa de nada. Mas nem por isso me dou por justificado, pois quem me julga é o Senhor. 5. Portanto, não julguem nada antes do tempo, até que venha o Senhor, o qual não somente trará à plena luz as coisas ocultas das trevas, mas também manifestará os desígnios dos corações. E então cada um receberá o seu louvor da parte de Deus.
Mateus 10:41. Quem recebe um profeta, no caráter de profeta, receberá a recompensa de profeta; quem recebe um justo, no caráter de justo, receberá a recompensa de justo. 42. E quem der de beber, ainda que seja um copo de água fria, a um destes pequeninos, por ser este meu discípulo, em verdade lhes digo que de modo nenhum perderá a sua recompensa.
Mateus 13:23. Mas o que foi semeado em boa terra é o que ouve a palavra e a compreende; este frutifica e produz a cem, a sessenta e a trinta por um.
Em termos gerais, podemos dizer que a salvação é um presente, enquanto o galardão é uma recompensa. No entanto, é importante notar que essa distinção não é tão simples. A palavra de Deus não fala apenas de um galardão adicional à vida eterna, mas também cita, por vezes, e até mais, a própria vida eterna como um galardão, um prêmio, uma recompensa. Em João 5:28-29, Jesus diz: "Não fiquem maravilhados com isso, porque vem a hora em que todos os que se acham nos túmulos ouvirão a voz dele e sairão: os que tiverem feito o bem, para a ressurreição da vida; e os que tiverem praticado o mal, para a ressurreição do juízo." Em Romanos 2:6-7, Paulo afirma que Deus recompensará cada um segundo suas obras, dando a vida eterna aos que "persistindo em fazer o bem, buscam glória, honra e imortalidade." Em Hebreus 12:14, o autor escreve: "Esforcem-se para viver em paz com todos e para serem santos; sem santidade ninguém verá o Senhor." Tiago, em sua carta, no versículo 14 do capítulo 2, diz: "Meus irmãos, qual é o proveito, se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras? Será que essa fé pode salvá-lo?". Em Apocalipse 21:27, João de Patmos fala sobre a santa cidade, a Nova Jerusalém: "Nela não entrará nada que seja impuro, nem o que pratica abominação e mentira, mas somente os inscritos no Livro da Vida do Cordeiro." Assim também, Paulo fala do seu ministério - podemos associar isso ao galardão futuro - em termos de "lutando conforme a sua força, que atua poderosamente em mim." (Cl 1:29), e "não eu, mas a graça de Deus em mim" (1 Co 15:10). Embora possa parecer paradoxal, isso mostra que a graça não apenas salva, mas também habilita para fazer obras que agradam a Deus, como também escreve Agostinho de Hipona, ao falar sobre a nossa interação com a graça divina:
Carta 195, 1: “E os justos receberão o prêmio em conformidade aos merecimentos da própria vontade, mas a própria vontade foi dom da graça de Deus.”
A Graça e a Liberdade, VI, 15: “Portanto, se os teus méritos são dons de Deus, ele não coroa os méritos como teus, mas como dons que são dele.”
A Graça e a Liberdade, VIII, 20: “Assim, caríssimos, se a nossa vida reta nada mais é que a graça de Deus, a vida eterna, recompensa da vida reta, é, sem dúvida, graça de Deus, a qual é outorgada gratuitamente, porque é dada gratuitamente a quem é outorgada. Somente esta a quem se dá, é chamada graça; a vida eterna, outorgada a quem viveu na graça, como é prêmio, é graça sobre graça, a modo de recompensa pela prática da justiça.”
A santidade é um requisito essencial para ver a Deus (Hebreus 12:14), e a Bíblia enfatiza a importância da santificação (1 Tessalonicenses 4:3-7). No entanto, como vimos, em 1 Coríntios 3:12-15 e 4:1-5, Paulo fala sobre a possibilidade de perder galardão por obras feitas com motivos duvidosos. A santidade é um requisito essencial para a salvação, enquanto o galardão é uma recompensa adicional. Embora alguém possa perder galardão por obras feitas com motivos duvidosos, isso não afeta a sua salvação. É importante notar que a santidade e o galardão são conceitos distintos. A santidade refere-se à separação de Deus para Ele mesmo, enquanto o galardão é uma recompensa adicional para aqueles que servem a Deus com motivações puras.
Vejamos alguns exemplos:
- Um cristão pode ter uma vida de santidade, mas trabalhar com motivos errados (por exemplo, buscar reconhecimento humano). Nesse caso, ele pode perder galardão, mas ainda assim é salvo.
- Outro cristão pode ter uma vida de santidade e trabalhar com motivos puros. Nesse caso, ele recebe galardão além da salvação.
Portanto, a santidade é essencial para a salvação final, enquanto o galardão é uma recompensa adicional. A Bíblia enfatiza a importância de ambos, mas de forma distinta.
A santidade é um requisito indispensável para a salvação final e para ver a Deus, pois reflete a natureza de alguém que foi transformado pela fé em Cristo. Já o galardão é uma recompensa adicoonal, um reconhecimento divino que premia o compromisso e a sinceridade nas obras, sem, no entanto, interferir na salvação. Esses conceitos são distintos, mas interligados, e juntos motivam o cristão a viver uma vida que busca agradar a Deus em santidade e sinceridade.
Em geral, há três explicações diferentes que os cristãos dão sobre como a graça se relaciona com a obediência.
(1) Alguns cristãos dizem que a obediência é benéfica, mas não é necessária. Segundo eles, seria bom corresponder a Jesus com obediência, mas de qualquer forma, ainda somos salvos pela graça e por meio da fé.
(2) Outros dizem que Deus fez a parte dEle e que agora é a nossa vez de fazer a nossa parte. Deus salva, mas nós somos responsáveis por obedecer. Deus certamente está disponível para nos aconselhar quando precisamos dEle, e Ele sempre está de prontidão. Mas, no fim das contas, cabe a nós trabalhar para a nossa salvação.
Mas, nenhuma dessas visões captura com precisão a relação entre graça e obediência. Porque nenhuma delas fala sobre energismo. Energismo é a terceira visão e, é a maneira mais precisa de entender a relação entre graça e obediência.
Os ensinos das Sagradas Escrituras resistem a simplificações. O próprio Deus é infinitamente imanente e infinitamente transcendente às criaturas, sendo igualmente aquele em quem “vivemos, e nos movemos, e existimos” e aquele que “habita na luz inacessível”. Para nós, essas realidades são paradoxais, misteriosas e desconcertantes. O Deus revelado não é desconhecido apenas, mas desconhecido de maneiras que sequer podemos imaginar. Por outro lado, como a criatura reflete o Ato Criador, por toda parte a névoa do Altíssimo se faz notar. Nada há do real que possamos compreender inteiramente.
Assim também com respeito à salvação da humanidade. Todo racionalismo mutilador, que queira forçar o mistério salvífico em algumas poucas fórmulas fáceis, eliminando todo o desconhecido, está fadado a ser achado em falta perante a grandeza daquilo que recebemos em Cristo pelo poder do Espírito Santo. Só podemos vislumbrar, perplexos, a atuação profunda da graça divina.
Por isso, o Novo Testamento usa certas imagens vívidas, certas metáforas, com o papel de tornar essas realidades mais compreensíveis, a partir de analogias com as criaturas: a vida eterna é descrita ao mesmo tempo como dom e como fruto. A vida eterna é, ao mesmo tempo, um dom da graça inteiramente concedido por Deus em Cristo e um fruto colhido pelos que semeiam no Espírito — em outras palavras, como algo que depende inteiramente e totalmente de Deus e algo que, ao menos em parte, depende de nós.
Por isso, o Novo Testamento usa certas imagens vívidas, certas metáforas, com o papel de tornar essas realidades mais compreensíveis, a partir de analogias com as criaturas: a vida eterna é descrita ao mesmo tempo como dom e como fruto. A vida eterna é, ao mesmo tempo, um dom da graça inteiramente concedido por Deus em Cristo e um fruto colhido pelos que semeiam no Espírito — em outras palavras, como algo que depende inteiramente e totalmente de Deus e algo que, ao menos em parte, depende de nós.
Muitos textos descrevem a salvação como dom gratuito que nos é concedido por Deus, por sua grande bondade, por sua graça supremamente rica: um presente, não uma recompensa. Como dom, é algo que simplesmente recebemos, e que, nesse caso, somos incapazes de comprar ou adquirir por nossas forças. Pode ser uma verdade óbvia para qualquer cristão, mas é importante notar que esse dom nos é concedido através de Cristo e nele. O dom resulta da justiça do próprio Cristo (Rm. 5:15-17; cf. 1Co. 1:30). Por outro lado, a Salvação também é descrita como fruto da Semeadura no Espírito.
Mateus 16:24-27: Então Jesus disse aos seus discípulos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, a perderá, mas quem perder a vida por minha causa, a encontrará. Pois, que adiantará ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou, o que o homem poderá dar em troca de sua alma? Pois o Filho do homem virá na glória de seu Pai, com os seus anjos, e então recompensará a cada um de acordo com o que tenha feito.
Mateus 25:31. — Quando o Filho do Homem vier na sua majestade e todos os anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória. 32. Todas as nações serão reunidas em sua presença, e ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos: 33. porá as ovelhas à sua direita e os cabritos, à sua esquerda. 34. — Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: “Venham, benditos de meu Pai! Venham herdar o Reino que está preparado para vocês desde a fundação do mundo. 35 Porque tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber; eu era forasteiro, e vocês me hospedaram; 36. eu estava nu, e vocês me vestiram; enfermo, e me visitaram; preso, e foram me ver.” 37. — Então os justos perguntarão: “Quando foi que vimos o senhor com fome e lhe demos de comer? Ou com sede e lhe demos de beber? 38. E quando foi que vimos o senhor como forasteiro e o hospedamos? Ou nu e o vestimos? 39. E quando foi que vimos o senhor enfermo ou preso e fomos visitá-lo?” 40. — O Rei, respondendo, lhes dirá: “Em verdade lhes digo que, sempre que o fizeram a um destes meus pequeninos irmãos, foi a mim que o fizeram.” 41. — Então o Rei dirá também aos que estiverem à sua esquerda: “Afastem-se de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos. 42. Porque tive fome, e vocês não me deram de comer; tive sede, e vocês não me deram de beber; 43. sendo forasteiro, vocês não me hospedaram; estando nu, vocês não me vestiram; achando-me enfermo e preso, vocês não foram me ver.” 44. — E eles lhe perguntarão: “Quando foi que vimos o senhor com fome, com sede, forasteiro, nu, enfermo ou preso e não o socorremos?” 45. — Então o Rei responderá: “Em verdade lhes digo que, sempre que o deixaram de fazer a um destes mais pequeninos, foi a mim que o deixaram de fazer.” 46. E estes irão para o castigo eterno, porém os justos irão para a vida eterna.
Romanos 8:13-14: Porque, se viverdes segundo a carne, caminhais para a morte; mas, se, pelo Espírito, mortificardes os feitos do corpo, certamente, vivereis. Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus.
Gálatas 6:7-10: Não vos enganeis: de Deus não se zomba; pois aquilo que o homem semear, isso também ceifará. Porque o que semeia para a sua própria carne da carne colherá corrupção; mas o que semeia para o Espírito do Espírito colherá vida eterna. E não nos cansemos de fazer o bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não desfalecermos. Por isso, enquanto tivermos oportunidade, façamos o bem a todos, mas principalmente aos da família da fé.
1 João 3:2. Amados, agora somos filhos de Deus, mas ainda não se manifestou o que haveremos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque haveremos de vê-lo como ele é. 3. E todo o que tem essa esperança nele purifica a si mesmo, assim como ele é puro. 4. Todo aquele que pratica o pecado também transgride a lei, porque o pecado é a transgressão da lei. 5. E vocês sabem que ele se manifestou para tirar os pecados, e nele não existe pecado. 6. Todo aquele que permanece nele não vive pecando; todo aquele que vive pecando não o viu, nem o conheceu. 7. Filhinhos, não se deixem enganar por ninguém. Aquele que pratica a justiça é justo, assim como ele é justo. 8 Aquele que pratica o pecado procede do diabo, porque o diabo vive pecando desde o princípio. Para isto se manifestou o Filho de Deus: para destruir as obras do diabo. 9. Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática de pecado, porque nele permanece a semente divina; esse não pode viver pecando, porque é nascido de Deus. 10. Nisto são manifestos os filhos de Deus e os filhos do diabo: todo aquele que não pratica a justiça não procede de Deus, e o mesmo vale para aquele que não ama o seu irmão.
Apocalipse 2:7. Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: ‘Ao vencedor, darei o direito de se alimentar da árvore da vida, que se encontra no paraíso de Deus.’”
Apocalipse 2:10. Seja fiel até a morte, e eu lhe darei a coroa da vida. 11. Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: ‘O vencedor de modo nenhum sofrerá o dano da segunda morte.’”
Apocalipse 3:5. O vencedor será assim vestido de branco, e de modo nenhum apagarei o seu nome do Livro da Vida. Pelo contrário, confessarei o seu nome diante de meu Pai e diante dos seus anjos.
Apocalipse 3: 11. Venho sem demora. Conserve o que você tem, para que ninguém tome a sua coroa. 12. Ao vencedor, farei com que seja uma coluna no santuário do meu Deus, e dali jamais sairá. Gravarei sobre ele o nome do meu Deus, o nome da cidade do meu Deus, a nova Jerusalém que desce do céu, vinda da parte do meu Deus, e o meu novo nome.
Apocalipse 21:1. E vi novo céu e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe. 2. Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus, preparada como uma noiva enfeitada para o seu noivo. 3. Então ouvi uma voz forte que vinha do trono e dizia: — Eis o tabernáculo de Deus com os seres humanos. Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles e será o Deus deles. 4. E lhes enxugará dos olhos toda lágrima. E já não existirá mais morte, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram. 5. E aquele que estava sentado no trono disse: — Eis que faço novas todas as coisas. E acrescentou: — Escreva, porque estas palavras são fiéis e verdadeiras. 6. Disse-me ainda: — Tudo está feito! Eu sou o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim. Eu, a quem tem sede, darei de graça da fonte da água da vida. 7. O vencedor herdará estas coisas, e eu serei o Deus dele e ele será o meu filho. 8. Quanto, porém, aos covardes, aos incrédulos, aos abomináveis, aos assassinos, aos imorais, aos feiticeiros, aos idólatras e a todos os mentirosos, a parte que lhes cabe será no lago que está queimando com fogo e enxofre, a saber, a segunda morte.
Numa lógica totalmente distinta, as Escrituras nos ensinam que o destino dos que vivem segundo a cerne, dos que semeiam para a carne, é a morte e a corrupção, ao passo que o destino dos que mortificam as obras carnais, semeando no Espírito, é colher a vida eterna. Os textos não nos dão uma alternativa terceira: a mortificação da carne é realizada pela semeadura no Espírito, e um modo indicado para realizar essa semeadura é “fazer o bem” (to kalon poiountes). O pecado gera a morte (cf. Tg. 1:15), e não muito antes, em Gálatas, o apóstolo havia listado as práticas carnais que impedem a entrada no Reino de Deus (Gl. 5:19-21), distinguindo-as do fruto do Espírito (Gl. 5:22-23). Não somos constrangidos a viver segundo a carne (Rm 8:12), pois, pela graça, o pecado não domina sobre nós (Rm. 6:14). A lei do Espírito liberta da lei do pecado (Rm. 8:2).
Os textos seguem — explicitamente, no segundo caso — a lei da semeadura: a vida eterna é o resultado de nossas ações. Parece-se, muito mais, com uma recompensa do que com um presente, ainda que o simbolismo da semeadura carregue certo traço de presente natural. Desta vez, o Espírito (não Cristo) é mencionado: é nele que se semeia e é dele que se colhe.
Mas há um mistério mais profundo aí. que o leitor perspicaz deve ter notado, quanto à a revelação da Trindade: o Senhor Jesus Cristo e o Espírito Santo realizam ações salvíficas diferentes: fomos providos do dom por aquilo que Cristo fez por nós; a semeadura do Espírito, ao contrário, é algo presente. É verdade que o apóstolo Paulo via Cristo e o Espírito profundamente unidos na obra de nossa limpeza, santificação e justificação (cf. 1Co. 6:11; Ef. 2:18). Ainda assim, as metáforas do dom e do fruto carregam a ordem missional trinitária, a Trindade Econômica. Isso liga, de certo modo, ao mistério joanino da unidade entre a Cruz e o Espírito (Jo. 7:38-39). O Espírito Santo reforma em nós a imagem de Cristo.
O termo energismo foi cunhado pelo estudioso do Novo Testamento John Barclay. Ele o criou depois de estudar Gálatas 2:8, onde Paulo disse que: "Pois Deus, que operou [energesas] por meio de Pedro como apóstolo aos circuncisos, também operou [energesen] por meu intermédio para com os gentios." A palavra "operou" traduz a palavra grega energeo , da qual obtemos a palavra energia. Aqui, Paulo falou sobre Deus trebalhando em e por meio dele e de Pedro em seus ministérios. E no versículo seguinte, Paulo descreveu esses mesmos ministérios em termos da “graça que foi dada” a Pedro e a ele mesmo.
Deus, em Sua graça, trabalhou em Pedro e Paulo — dois pecadores indignos de favor e incapazes de fazer algo por si mesmos — para levar a mensagem de Jesus até os confins da terra. "Energismo", portanto, refere-se a Deus trabalhando em nós e através de nós para realizar a Sua vontade. Quando falamos sobre obediência como nossa resposta a Deus — Deus faz a parte Dele; agora nós fazemos a nossa — isso cria uma separação grande demais entre a obra de Deus e a nossa. Quando somos salvos, nos tornamos um com Cristo e somos habitados pelo Espírito, de forma que se torna impossível separar a presença capacitadora de Cristo, a obra transformadora do Espírito e a nossa própria resposta regenerada a Deus.
Isto é: Nossa união com Cristo nos impulsiona a obedecer. Nossa vontade, emoções e desejos estão entrelaçados com os Dele. O Espírito que habita em nós nos capacita a obedecer. Fomos revestidos com o Cristo ressuscitado, então não podemos nos entender como separados Dele. Com essa força espiritual tão poderosa, é impossível que um seguidor genuíno de Cristo — revestido com a justiça de Cristo, habitado pelo Espírito Santo — não preste obediência a Deus.
Ainda assim, dom ou fruto? Necessariamente ambos, mas como? A articulação entre os dois princípios, entre as duas metáforas, é a distinção maior entre a doutrina cristã ortodoxa e a heresia pelagiana. Santo Agostinho escreveu sobre Romanos 8:13
“Acaso parece bem dizer que mortificar as obras da carne não seja dom de Deus e que não confessamos ser dom de Deus porque sabemos ser uma exigência em troca da recompensa oferecida da vida eterna, se as fizermos? Não permita Deus que esta opinião agrade aos que participam da verdadeira doutrina da graça e a defendem. É este um erro condenável dos pelagianos, os quais o Apóstolo fez calar, quando diz: Todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus, o que evita acreditar que a mortificação de nossa carne não seja um dom de Deus, mas capacidade do nosso espírito. (…) Portanto, assim como, embora seja de Deus, o mortificar as obras da carne é exigência para a consecução do prêmio da vida eterna prometida, assim também a fé, embora seja condição indispensável para alcançar a recompensa da salvação prometida, quando se diz: Se creres, serás salvo. Por conseguinte, ambas as coisas são preceitos e dons de Deus, para entendermos que as fazemos e Deus faz com que as façamos, como diz claramente o profeta Ezequiel.” A predestinação dos santos (12, 22)
Concluímos, portanto, que o dom sobrenatural da vida eterna em Cristo está na base do fruto da vida eterna no Espírito, e, não há uma área da vida cristã (seja em relação a salvação em si, ou a recompensas adicionais a ela) em que a graça de Deus não seja essencial, ou que não devemos corresponder a iniciativa e capacitação divina dadas à nós.
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