Seriam as boas obras das pessoas não cristãs são pecaminosas? Não biblicamente! - por Rev. Gyordano Montenegro
Muitos fazem essa pergunta. Há pessoas que pensam assim, que as boas obras dos não cristãos são pecaminosas.
Porém, a ideia é essencialmente incorreta. Se fosse correta, as orações e obras de Cornélio não poderiam ter sido aprovadas por Deus. Há, no entanto, algo nela que se parece com a verdade. O primeiro e mais importante mandamento é o amor a Deus com todas as nossas forças. Ora, se uma pessoa despende suas "forças" de outro modo que não por amor a Deus, há aí pecado; mas isso não significa que as ações sejam particularmente pecaminosas, e sim que há um pecado constante do qual uma dada pessoa precisa se arrepender. De todo modo, há um salto quando se diz que isso se aplica a pessoas "não cristãs".
De todo modo, a ideia de que as boas obras dos não cristãos sejam pecaminosas se baseia na interpretação errada de principalmente dois textos:
• Romanos 14:23 ("tudo o que não provém de fé é pecado")
Entendem que a atitude de uma pessoa não cristã "não provém de fé" e, por isso, é pecado. Mas é uma leitura errada do texto. O que o texto condena é a atitude de quem vai contra a própria consciência. A fé (convicção) aí não se refere à "fé cristã", mas a acreditar que algo é errado (e mesmo assim fazê-lo). O que está em jogo, no contexto, é impureza alimentar, e Paulo claramente a relativiza ("nenhuma coisa é de si mesma impura, salvo para aquele que assim a considera", v. 14).
• 1Coríntios 10:31 ("fazei tudo para a glória de Deus")
Entendem que a atitude de uma pessoa não cristã não é feita intencionalmente "para a glória de Deus", então seria pecado. Ou seja, o texto é lido como significando um tipo de "intenção" que deve estar por trás das nossas mais mínimas ações. Mas não é esse o sentido do texto. O que ele nos mostra não é um critério para distinguir intenções, mas para orientar a ação. Uma ação é para a glória de Deus mesmo que não haja uma intenção de glorificar a Deus; basta que seja feita de acordo com sua própria natureza, conforme determinada por Deus. Não há qualquer diferença entre se espreguiçar para a glória de Deus e se espreguiçar sem pensar nisso; a intenção não se conecta com a ação de nenhuma maneira, é apenas um pensamento.
O que glorifica a Deus não é uma intenção de glorificar a Deus que não tenha nada a ver com a ação em si; mas a obediência à lei divina, de acordo com o que a situação concretamente pede. Quando, dois versículos depois, Paulo diz que procurava "em tudo, ser agradável a todos", ninguém supõe que Paulo respirava ou se coçava com a intenção de agradar outras pessoas, mas apenas que ele fazia essas coisas quando a situação pedia. No contexto, a situação pedia que os cristãos comessem sem escândalo; é a ação em conformidade com a lei do amor que era para a glória de Deus, não uma ideia desconectada que estivesse no pensamento.
Ironicamente, os dois textos vêm de contextos em que Paulo discute a necessidade de obediência e respeito à consciência.
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