Pecado Ancestral: A queda e suas consequências
No relato da criação do Antigo Testamento, Deus criou a humanidade e estabeleceu um lugar para ela chamado Paraíso. Ele também lhe deu um mandamento a respeito da árvore do conhecimento do bem e do mal (Gn 2:16-17). Ao desobedecer a este mandamento, Adão e Eva pecaram, afastando-se voluntariamente do caminho de Deus para a perfeição e separando-se dAquele que é a Fonte da Vida. Nisso, quase todas as igrejas cristãs concordam. No entanto, quando se trata de detalhes sobre a Queda e o pecado, o Ocidente romano tem uma visão diferente do Oriente Ortodoxo. Neste post, exploramos as consequências da Queda, destacando as diferenças entre a visão ocidental do pecado original e a visão tradicional mantida pela Igreja antiga, o pecado ancestral.
QUAIS SÃO AS CONSEQUÊNCIAS DA QUEDA?
A diferença entre pecado original e pecado ancestral se manifesta principalmente nas consequências da Queda. Em alguns pontos aqui, as igrejas orientais e ocidentais concordam, enquanto em outros elas divergem.
NÓS SOMOS MORTAIS
Em primeiro lugar, a Queda fez com que a humanidade se tornasse sujeita à mortalidade ( Gn 3:19 ). Enquanto o Ocidente costuma ver isso apenas como uma espécie de punição ou penalidade, o Oriente mostra que há também misericórdia de Deus em Seus julgamentos sobre Adão e Eva. Gregório, o Teólogo, escreve: “No entanto, aqui também Ele fornece um benefício – a saber, a morte, que elimina o pecado, para que o mal não seja eterno. Assim, Seu castigo é transformado em misericórdia.”
Em relação a morte espiritual, uma pergunta surge: se nós já nascemos mortos espiritualmente, por que Romanos 7:5 ensina que essa morte é consequência dos nossos pecados?
A lógica é: se você já está morto, não faz sentido morrer de novo. O que essa pergunta presume, e que está na cabeça de muita gente, é que você deve tratar a morte espiritual do mesmo modo que trata a morte corporal. Em vez de limitar a figura de linguagem ao seu contexto próprio, se tenta tratá-la como uma explicação completa de uma dada condição. E tudo sempre naquela lógica disjuntiva exclusiva: ou é isto ou é aquilo. Na verdade, o mais comum é que na Bíblia a resposta seja: é as duas coisas.
Isso é muito comum. Todo mundo já viu algum monergista mal informado de internet argumentar que, se chagamos ao mundo espiritualmente mortos, não temos livre arbítrio porque, em tese, "morto não faz nada" (o que só é verdade para quem pensa como ateu). É a extrapolação de uma figura de linguagem.
Embora não haja um texto na Bíblia que ensine explicitamente que nascemos espiritualmente mortos (isto é, separados da comunhão com a vida divina), isso pode ser deduzido do que Paulo ensina sobre o pecado em Romanos 5:12-21 (texto que não distingue entre morte corporal e morte espiritual). É nesse sentido que o Concílio de Orange fala do pecado adâmico como "morte da alma". Uma pessoa assim não está morta em todos os sentidos, mas apenas sem comunhão com Deus.
Mas é certo que o mais comum, na própria bíblia, é que a morte espiritual seja vista como resultado dos nossos próprios pecados: "as paixões pecaminosas... operavam em nossos membros, a fim de frutificarem para a morte" (Rm 7:5), "se viverdes segundo a carne, morrereis" (Rm 8:13), "estando vós mortos em ofensas e pecados" (Ef 2:1), "o pecado, uma vez consumado, gera a morte" (Tg 1:15). Esse segundo lado é mais esquecido pelas pessoas que acham que, uma vez vivificadas em Cristo, não podem mais sofrer morte espiritual. O que é falso, segundo esses e outros textos.
Contudo as coisas não terminam por aí. A metáfora da morte tem outros usos, como quando Paulo diz: "estou morto para a lei, para viver para Deus" (Gl 2:19), o que é ainda outra morte.
A HUMANIDADE TEM UMA INCLINAÇÃO PARA O PECADO
Porque toda a humanidade se afastou da graça de Deus pela desobediência de Adão, o homem agora tem uma propensão – uma disposição ou inclinação – para o pecado. Porque assim como a morte entrou no mundo pelo pecado, agora o pecado entra no mundo pelo medo da morte.
No Ocidente, muitas denominações cristãs insistem que junto com a inclinação para o pecado, entramos neste mundo com a culpa do pecado de Adão em nossa alma. Esta visão surgiu através dos ensinamentos do Beato Agostinho de Hipona (c. 354-430 dC), cujos ensinamentos foram (e ainda são) bastante populares no cristianismo ocidental. No Oriente, porém, se mantém a visão dos pais da Igreja: somos culpados não por causa do pecado de Adão, mas por causa de nosso próprio pecado.
O PECADO ESTRAGA A IMAGEM DE DEUS EM NÓS
Por causa de nossa forte propensão a cometer pecado, a imagem de Deus no homem ( Gên. 1:26-27 ) também caiu. No Ocidente, o calvinismo especificamente tende a levar isso um pouco longe demais, ensinando a doutrina da depravação total . Isso significa essencialmente que, como consequência da Queda, além da graça eficaz (irresistível) ou preveniente (capacitadora) de Deus, toda pessoa nascida neste mundo é completamente incapaz de escolher por si mesma seguir a Deus, abster-se do mal ou aceitar o dom da salvação. Em outras palavras, Deus deve iniciar o relacionamento e fazer todo o trabalho pesado. Esta visão obviamente requer a negação total do livre-arbítrio, mesmo que condicional, isto é, enfraquecido pelos desejos que guerreiam na nossa carne.
Naturalmente, isso contradiz a posição da Igreja primitiva, que insiste na bondade inerente da natureza humana; afinal, Deus não é o autor do mal. Aquilo que Ele cria não pode ser mau em sua natureza.
Inclusive a expressão “depravação total”, cunhada pela ala calvinista do protestantismo (este termo não é uma citação de João Calvino, mas é uma expressão que tentava descrever seu ponto de vista) contém em si uma ambigüidade infeliz. Muitos dos que se expõem pela primeira vez a essa terminologia supõem ser este o seu significado: Calvino ensinava que todos os pecadores são tão completamente maus quanto podem ser.
Mas Calvino negava expressamente essa idéia. Reconhecia que “em cada época, existem pessoas que, guiadas por natureza, se empenham pela virtude durante toda a vida”. Ele sugeriu que tais pessoas (“embora haja lapsos… em sua conduta moral”) possuem caráter recomendável, conforme o ponto de vista humano. “Por meio do próprio zelo de sua honestidade, elas têm dado provas de que há alguma retidão em sua natureza.” Ele foi mais além: “Esses exemplos parecem advertir-nos contra o sentenciarmos a natureza do homem como totalmente corrupta, porque alguns homens têm, por seu impulso, não somente sido excelentes em obras notáveis, mas também se comportado de maneira honrosa durante a vida”.
A ideia de uma dupla inclinação no ser humano (para o bem e para o mal), que vemos na tradição cristã, é difícil de entender a menos que essas duas tendências estejam operantes em dimensões diferentes do ser humano. Do contrário, elas simplesmente se anulam. Operando em lados diferentes de nós, elas manifestam um drama, uma batalha.
Podemos dizer, então, que há, no espírito humano, uma tendência para as coisas mais elevadas, para apreciação da beleza, da bondade e da verdade, a qual não é extinta por completo nem mesmo nos espíritos mais corrompidos. É nesse sentido que Paulo fala dos gentios que "naturalmente observam as coisas da lei" (φύσει τὰ τοῦ νόμου ποιῶσιν, Rm 2:14), tendo em sua própria consciência a substância da lei. Essa dimensão aponta para cima, para a Unidade Transcendente, da qual deseja participar.
Há uma segunda dimensão, que aponta para baixo. Essa é a dimensão da "carne", na linguagem paulina, a qual designa, de certo modo, toda a nossa humanidade, mas toda a humanidade sob o prisma de nossa facticidade material, nossa materialidade corporal, nossa corporeidade objetificada — aquilo que ele tem de terreno e transitório, o seu corpo animal.
Não devemos dizer que o corpo é mau (como na gnose vulgar), mas, se a salvação envolve livrar-se das "obras do corpo", evitar o "semear na carne", e vencer as "paixões desordenadas da carne", algo na relação com o corpo está no lugar errado. As paixões (o desejo, a ira, o medo...) são o animal no homem, como esclarece São Gregório de Nissa — são boas e necessárias à sobrevivência do animal como tal. Mas o homem não é só um animal, ele tem uma natureza mais elevada, que não pode se rebaixar à condição animal, fugitiva da morte. Sob a condição de mortalidade, o homem de torna prisioneiro, escravo, do que está abaixo, e sua alma se conforma a essa condição.
Nesse sentido, a inclinação para cima está em seu espírito, mas a inclinação para baixo está em sua animalidade desordenada. Essa contradição entre uma mente que ama a lei de Deus e um corpo mortal escravo da lei do pecado é a essência do drama paulino de Romanos 7.
"O homem, revestido de honrarias, mas sem entendimento, é, antes, como os animais, que perecem." Salmo 49:20
Como diria Tomás de Aquino:
"Assim, segundo a ordem das inclinações naturais é a ordem dos preceitos da lei natural.
Em primeiro lugar, pois, há uma inclinação no homem para o bem segundo a natureza que tem em comum com todas as substâncias, de acordo com a qual cada substância apetece a conservação do seu próprio ser segundo sua natureza. E segundo essa inclinação, pertence à lei natural o meio pelo qual se conserva a vida do homem e se impede o seu contrário.
Em segundo lugar, há uma inclinação no homem àquilo que lhe é mais específico, segundo a natureza que partilha com os demais animais. E segundo isso, se diz que são da lei natural aquelas coisas que "a natureza ensinou a todos os animais", às quais pertence a conjunção entre macho e fêmea, a educação da prole e coisas semelhantes.
Em terceiro lugar, há no homem uma inclinação ao bem segundo a natureza da razão, que lhe é própria, de modo que o homem tem inclinação natural para que conheça verdadeiramente a Deus, e para que viva em sociedade. E segundo isso, pertencem à lei natural as coisas que se referem a tal inclinação; como que o homem evite a ignorância, que não ofenda aos outros com quem tem de conviver, e outras coisas que digam respeito a essa inclinação."
Em outras palavras, a depravação é “total” para Calvino no sentido de que afeta todas as partes de nosso ser — não somente o corpo, não somente as emoções, mas igualmente a carne, o espírito, a mente, as emoções, os desejos, os motivos e a vontade, juntos. Mas não significa que somos tão somos tão maus quanto podemos ser, pois mesmo em nosso estado decaído, sujeitos ao pecado ancestral, ainda somos capazes de fazer o bem; embora a escravidão à morte, a influência do diabo e a concupiscência carnal muitas vezes entorpeçam nossa percepção do que é bom e nos levem ao pecado.
Isso cria uma relação sinérgica entre a humanidade e Deus, na qual somos colaboradores com Ele no caminho da nossa salvação (1 Coríntios 3:9). Se quisermos alcançar plena comunhão com Deus, não podemos fazê-lo sem Sua ajuda. No entanto, devemos também desempenhar nossa própria parte, dando nossa contribuição a esse trabalho comum com Deus. Por meio do sinergismo, mantemos nosso livre arbítrio e a capacidade de escolher se andamos com Deus ou nos afastamos dele.
MUITAS VEZES O DESEJO FICA FORA DE CONTROLE
Mesmo após a Queda, os aspectos intelectuais, desejantes e incensivos (forçantes/condutores) da alma são naturais e, portanto, neutros. Eles podem ser usados para o bem ou para o mal. Por exemplo, o desejo é muito bom quando se dirige a Deus. Mas quando o desejo está fora de controle, pode-se usá-lo de maneiras muito inadequadas, como tornar-se glutão ou cobiçar o cônjuge de outra pessoa.
A analogia clássica é que esses poderes da alma são como o ferro, que pode ser transformado em um arado para ajudar a cultivar alimentos ou em uma espada usada para matar alguém.
OUTRAS CONSEQUÊNCIAS DA QUEDA
Além de todas as outras consequências que mencionamos acima, a Queda também trouxe coisas como suor, labuta, fome, sede, cansaço, tristeza, dor, sofrimento, doença, tribulações, tragédia e lágrimas. Deus os permite como consequência natural do pecado, e muitas vezes podem ser úteis em nosso caminho de salvação e santidade.
COMO A IGREJA DEFINE O PECADO ANCESTRAL?
Em vez de pecado original , que é usado no cristianismo ocidental, a Igreja Ortodoxa usa o termo pecado ancestral para descrever o efeito do pecado de Adão na humanidade. Fazemos isso para fazer uma distinção fundamental; não pecamos em Adão (como sugere a tradução latina de Romanos 5:12 ). Ao contrário, pecamos porque o pecado de Adão nos tornou capazes disso. A seguir, uma tradução melhor da passagem mencionada:
12. Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte; e assim a morte passou a todos os homens, por isso que todos pecaram" - ASV
A palavra grega para pecado, amartema , refere-se a um ato individual, indicando que somente Adão (e Eva) assumem total responsabilidade pelo pecado no Jardim do Éden. A Igreja primitiva nunca fala de Adão passando a culpa para seus descendentes, como fez Agostinho. Em vez disso, cada pessoa carrega a culpa de seus próprios pecados.
COMO ISSO AFETA NOSSA COMPREENSÃO DA SALVAÇÃO
Como o catolicismo entende o pecado em termos legais, o Ocidente vê o pecado e a morte como uma dívida e um crime contra Deus. Mesmo que Deus perdoe seus pecados, você ainda deve pagar por eles com punição temporal no Purgatório (observe que a maioria dos protestantes rejeita isso). Deus essencialmente requer satisfação tanto pela culpa do pecado quanto pela dívida que o crente deve a Deus em pagamento. Portanto, a salvação em alguns ramos do cristianismo significa simplesmente satisfazer a Deus e evitar o castigo .
Em contraste, nas Escrituras entendemos que deve-se ver o pecado também como “errar o alvo”, ou falhar em viver de acordo com a vida que Deus espera de nós. Portanto, nosso objetivo é não errar o alvo novamente. A salvação, portanto, significa alcançar a theosis (tornar-se semelhante a Deus na maneira como vivemos nossas vidas). É de comum acordo que o perdão não “corrige todas as desordens do pecado” (CCC, 1459). No entanto, não concordamos que a solução para isso esteja em dar satisfação pelos seus pecados. Em vez disso, ensinamos que nosso comportamento deve mudar e que devemos nos reorientar para Deus.
CONCLUSÃO
1. Herdamos a natureza adâmica (uma fraqueza herdada, uma condição de escravidão diante dos poderes das trevas, que nos levam à transgressão pessoal);
2. Não pecamos em Adão ou herdamos sua culpa;
3. Herdamos as consequências da culpa de Adão.
Mas Cristo, por Sua morte e ressurreição, venceu o diabo e a morte, libertando a humanidade do medo da morte (Hb. 2:14-15). Ele tornou possível uma comunhão mais completa entre Deus e o homem do que jamais foi possível antes. Esta comunhão permite a cada um de nós tornar-nos “participantes da natureza divina”. Permite-nos transcender a morte e, em última análise, as consequências da Queda que nos foram transmitidas pelo pecado ancestral.
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