A Eficácia batismal
Quando Jesus iniciou seu ministério terreno, atraiu a atenção dos discípulos de João Batista. Os judeus aguardavam a vinda do Messias, o libertador que lhes traria paz, plenitude e salvação. Então João Batista envia seus discípulos a perguntar se Jesus seria esse libertador aguardado. A resposta de Jesus não é um sim ou um não; ele lhes mostra o seu ministério: “os cegos vêem, os aleijados andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados e as boas novas são pregadas aos pobres;” (Lucas 7:22).
No Novo Testamento, há duas eras, dois séculos ou dois mundos: a presente era má, regida por Satanás, da qual Cristo nos libertou (2Co. 4:4; Gl. 1:4), e a era futura, da ressurreição e da vida eterna (Mc. 10:30; Lc. 20:35). A era futura seria marcada pelo perdão de Deus e pela presença abundante e vivificadora do Espírito Santo, derramado sobre a humanidade, levando os gentios à conversão e todo o povo de Deus à santidade (Jr. 31:34; Ez. 36:25-27; Os. 2:23; Jl. 2:28).
João Batista certamente entendeu a mensagem: o aparecimento de Jesus inaugura a era messiânica. Estava acontecendo o que deveria acontecer. Desde então, já vivemos os últimos dias — ep’ eschatou tōn hēmerōn toutōn (Hb. 1:1; cf. 1Co. 10:11). Esse é um dos traços mais marcantes da escatologia cristã, a teologia das últimas coisas: ela começa com Jesus e termina com Jesus. Ele é o Alfa e o Ômega.
Os teólogos, ao falarem dessa escatologia inaugurada, se acostumaram a falar em um já e um ainda não. O reino de Deus já é nossa morada, mas ainda não. Vivemos já no mundo vindouro, mas ainda não. O povo de Deus já é um povo santo, mas ainda não. Estamos já livres do mal, mas ainda não. Aquele que crê tem já hoje a vida eterna, mas ainda não. Isso porque se trata de uma escatologia inaugurada, mas não ainda plenamente realizada.
Por isso, a fé cristã aponta tanto para o passado (como anúncio) quanto o futuro (como esperança): ela é sempre a vitória consumada na Cruz e na Ressurreição, e é sempre esperança do tempo vindouro. Todo o ministério da Igreja é ser o elo presente entre o que já aconteceu e o que ainda acontecerá. Cristo é, em nós, a esperança da glória (Cl. 1:27).
Os sacramentos são símbolos vivos dessa dupla realidade. Por um lado, apontam para aquilo que Jesus fez e realizou, quando curou, quando perdoou, quando ceou, quando morreu, quando ressuscitou. Por isso mesmo, nos sacramentos se mostra sempre a tensão entre Presença e Ausência, entre o já e o ainda não, entre a esperança da glória e as tribulações do tempo presente, entre ser liberto pela Cruz e carregar a própria cruz, entre o Deus que se mostra e o mesmo Deus que se oculta.
Jesus ordenou o batismo para a salvação, ele disse: “Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado” (Marcos 16:16). Pedro também ensinou que o batismo salva: “E isso é representado pelo batismo que agora também salva vocês — não a remoção da sujeira do corpo, mas o compromisso de uma boa consciência diante de Deus — por meio da ressurreição de Jesus Cristo” (1 Pedro 3:21).
Por que o batismo é um critério para a salvação? Porque, pela fé, através dele, recebemos o perdão dos pecados! Depois que uma pessoa crê que Jesus é a propiciação pelos seus pecados e se arrepende deles, ela precisa ser batizada para obter o perdão. É isso que a Bíblia ensina:
“Pedro respondeu: ‘Arrependam-se, e cada um de vocês seja batizado em nome de Jesus Cristo, para perdão dos seus pecados, e receberão o dom do Espírito Santo’” (Atos 2:38).
“E agora, que está esperando? Levante-se, seja batizado e lave os seus pecados, invocando o nome dele [o nome de Jesus].” (Atos 22:16)
É impossível alguém entrar no Céu sem obter o perdão dos pecados. Ora, se o pecador arrependido recebe o perdão no batismo, então o batismo é ordinariamente necessário para a salvação!
Reforçando essa ideia, há numerosos exemplos de batismo, alguns dos quais são estes: Crispo (Atos 18:8); o eunuco etíope (Atos 8:36-38); Paulo (Atos 22:16); o carcereiro de Filipos (Atos 16:25-34). Em vista destas passagens, temos que reconhecer que o Novo Testamento ensina que o batismo é essencial no plano de Deus de salvação para o homem, em vez de afirmar sem base que é apenas um testemunho ou confissão pública de fé.
Mas e se alguém se converter e quiser se batizar mas morrer antes de ser batizado? Deus é quem vai decidir se essa pessoa vai ser salva ou não. Cabe a Ele julgar, não a nós. Mas enquanto é um ensino claro da Escritura que o batismo é normalmente necessário para a salvação, não há motivo para alguém se recusar a recebê-lo ou não crer que ele serve para a remissão dos pecados e salvação (embora o batismo por si só não perdoe os pecados nem salve se a pessoa batizada não creu em Jesus e não se arrependeu dos seus pecados).
Como vimos, nas Escrituras o batismo aponta, por um lado, para a redenção consumada por Jesus Cristo no Gólgota e o perdão dos pecados (Rm. 6:3-7). Já na pregação de Pedro, como vimos também, o vínculo entre o sacramento do batismo e a promessa do perdão de pecados é subentendido (At. 2:38), mas coube ao apóstolo Paulo enunciar esse vínculo como vínculo cristológico: somos perdoados porque no batismo morremos com Cristo. Não estamos mais mortos em Adão, mas vivos em Cristo (Cl. 2:12). Em fé, não pertencemos mais ao mundo decaído, mas ao Reino inaugurado.
COLOSSENSES 2:12
12 “Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos.”
Essa justificação batismal e inicial, essa declaração sacramental de perdão de pecados, aponta profeticamente para a justificação escatológica e final (Rm. 2:4-13), o juízo divino em que os salvos ouvirão: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo (Mt. 25:34). No batismo, somos declarados mortos com Cristo, mas recebemos sobre nós também a missão de viver com Cristo. Vivemos já uma vida ressurreta, na esperança da ressurreição futura.
Como diz este importante documento da doutrina anglicana:
“O Batismo é o sacramento mediante o qual, pelo arrependimento e pela fé, recebemos esta salvação: unimo-nos a Cristo na sua morte; obtemos o perdão dos nossos pecados; somos feitos membros do seu Corpo; e com Ele nos elevamos a uma vida nova no Espírito.” (LOCb)
A coisa mais impressionante que a Sagrada Escritura diz sobre o batismo é que ele “salva”: sōzei baptisma (1Pe. 3:20,21). Diferentemente do que prega o zuinglianismo, tão comum entre evangélicos brasileiros, o batismo jamais é descrito nas Escrituras como “apenas um símbolo”. Na realidade, a Escritura jamais diz ou dá a entender que o batismo é um símbolo, em primeiro lugar. No texto de 1 Pedro, o Dilúvio foi o símbolo; a realidade simbolizada é o batismo. Quando se utiliza a palavra “símbolo” para o batismo, trata-se de linguagem meramente fenomenológica, e não de uma descrição fundada na Revelação, pois o batismo é uma declaração profética do nome de Deus e da “purificação” (Jo. 3:25,26; cf. Ex. 12:44; Nm. 19:11-13; Lv. 14:8; 22:6) sobre a vida de uma pessoa. Na Bíblia, declarar o nome de Deus sobre algo ou alguém significa que esse algo ou alguém agora pertencente a Deus como lugar de sua habitação e manifestação (Tg. 2:7; cf. Dt. 28:10; 2Sm. 6:2; 1Rs. 8:43; 1Cr. 13:6; At. 15:17; 22:16). O batismo é um ato exterior, simbólico, ao qual é acrescida a promessa de renovação espiritual. A noção da promessa como atrelada ao batismo foi uma das ênfases corretas de Lutero na teologia do batismo, que é também um símbolo do sepultamento (Cl. 2:12) e de morte por afogamento (1 Pe 318-21). A pessoa morre não apenas para os pecados individuais que tenha cometido (At. 2:38), mas também para o mundo como um todo e para o pecado original (Rm. 6:1-8), do qual todos os seres humanos são herdeiros até o momento de se tornarem herdeiros de Cristo (1Co. 15:22). Ela deixa de estar em Adão (velha criação, condenada) e passa a estar em Cristo (nova criação, libertada). Por isso, o batizado recebe sobre si a promessa profética de não mais fazer parte das relações deste mundo (Gl. 3:27,38), algo que só vai se cumprir inteiramente na eternidade. Esse “revestir-se” transmitia a idéia de assumir uma nova identidade, um novo relacionamento com o restante do mundo. A velha identidade se perdeu.
O lado profético é importante, porque mesmo pessoas que são batizadas adultas continuam pecando, apesar de terem se comprometido a uma vida nova.
O fato é que o batismo e a fé estão intimamente ligados. Por isso, às vezes o batismo é chamado sacramento da fé. Isso quer dizer que as promessas do batismo só são plenamente usufruídas quando se exerce a fé e o batismo é sempre precedido da pregação do Evangelho.
Muitos cristãos citam João 3:5 e seu contexto como exemplo disso, mas poucos prestam atenção semelhante a Hebreus 10:19-22 . Aqui, o escritor diz: “Portanto, irmãos, visto que temos confiança para entrar nos lugares santos pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que ele nos abriu pelo véu, isto é, pela sua carne, e visto que temos um grande sacerdote sobre a casa de Deus, aproximemo-nos com verdadeiro coração, em plena certeza de fé, tendo o coração purificado de má consciência e lavado o corpo com água pura”.
Nesta Escritura, o escritor nos exorta a nos aproximarmos de Deus com confiança. Ao todo, ele enumera cinco coisas que devem nos dar a segurança de fazê-lo: três coisas celestiais que estão presentes e duas coisas terrenas que devem estar presentes. As três coisas celestiais são o sangue de Jesus, o caminho que Ele abriu através do véu para a presença de Deus e Seu sacerdócio sobre a casa de Deus.
Por mais necessárias que sejam essas coisas, elas não são suficientes. Caso contrário, até mesmo o idólatra e o ateu seriam capazes de entrar na presença de Deus sem mudar nada em si mesmos. Certamente, os judeus incrédulos dos dias do escritor de Hebreus teriam conseguido, o que teria anulado todo o ponto do livro!
Em vez disso, apenas uma classe limitada é capaz de aproveitar o caminho que foi aberto. Se quisermos nos aproximar, nossos corações devem ter sido purificados de uma má consciência e nossos corpos devem ter sido lavados com água pura. Observe que a conjunção aqui é “e”, não “ou”. Assim como os benefícios advindos da obra de Jesus não são aplicados a nós sem uma resposta de fé da nossa parte, apenas uma dessas coisas também não é suficiente por si só. Não podemos simplesmente pensar que fomos salvos para formar um relacionamento com Deus. Devemos ter sido batizados também.
De fato, este texto até indica qual modo de batismo é o mais apropriado. A aspersão como é praticada hoje não é nada como uma lavagem do corpo, nem um derramamento (normalmente, o batizador só derrama água na cabeça do batizado). Apenas a imersão se assemelha a uma lavagem corporal.
O ponto para nós é claro. Ou estamos na presença de Deus, agora e eternamente, ou estaremos fora da presença de Deus, agora e eternamente. Se o primeiro é o que queremos, temos que nos submeter à vontade de Deus para chegar lá, uma vontade que ordena tanto a fé quanto o batismo.
No Antigo Testamento, existia a prática de circuncisão, que era o meio pelo qual alguém passava a fazer parte do povo de Deus. Tanto crianças quanto adultos eram circuncidados; uma criança não circuncidada estava excluída do povo de Deus (Gn. 17:14). Hoje o batismo, de certa forma, substituiu a circuncisão (Cl. 2:11,12) e é pelo batismo que somos incorporados à Igreja. No Novo Testamento, quando os pais se convertiam, toda a família era batizada (At. 10:47,48; 11:14; 16:15; 16:30-34; 1Co. 1:16), assim como no Antigo toda a família era circuncidada (Gn. 17:12,13). A circuncisão era um selo da fé que Abraão teve (Rm. 4:11), mas mesmo os seus filhos receberam esse selo de fé.
Mas na comunidade cristã, o batismo é o sacramento da transição entre o velho e o novo mundo.
A circuncisão excluía a mulher, uma vez que a mesma era um sinal no órgão genital masculino, o batismo com água passou a incluí-la e coloca-la em termos de igualdade no Reino de Deus. O rito judaico também exigia o legalismo (observância irrestrita da lei) como meio de salvação. A ênfase da circuncisão era a prática de obras para a justificação. O batismo com água exige simplesmente a fé, confiança na graça de Deus. Nele, os méritos humanos para a justificação são excluídos diante de Deus (Ef 2. 8-9); e por fim, a circuncisão limitava o direito dos gentios (pessoas fora da cultura judaica) em relação ao pacto com Deus. O batismo com água nivela a todos, deixando-os iguais e com o mesmo direito diante de Deus (Gl 3. 27-29). No projeto do Reino de Deus não há lugar para legalismos, acepção de pessoas, exclusões, etc. Nele (no Reino), todos têm acesso irrestrito à graça e amor de Deus, seja ele, homem, mulher ou criança. O batismo com água foi introduzido na comunidade cristã para que todos(as) tivessem pleno acesso ao Reino de Deus, especialmente os excluídos da sociedade: o estrangeiro, a mulher e a criança (cf. Lc 18. 15-17; At 10. 45-47).
As igrejas evangélicas mais recentes têm algumas dificuldades em relação ao propósito do batismo por crerem que o batismo é apenas uma profissão de fé.
E é compreensível também a dificuldade que os reformados calvinistas geralmente têm com a eficácia Batismal. Ela se choca com a "Perseverança dos Santos" e talvez também com a "Graça Irresistível".
Pois se o Batismo traz todas as bênçãos citadas aos que creem e, mesmo assim, consideramos que vários batizados se perdem, isso significa que alguém regenerado pela graça pode ser condenado — portanto, nem todos os "santos" perseveram.
Se a graça é dada a todos os batizados, e nem todos são santificados por ela, ela é resistível, e isso se choca com a noção de "Graça Irresistível", embora alguns dos seus defensores (como Bavinck) reconheçam que certas moções da graça são resistíveis. Tecnicamente, não choca com as doutrinas do sínodo de Dort nesse momento, mas com uma interpretação mais popular da coisa.
Como nos argumentos baseados em 2Pe 2:1, Hb 10:27-28 e textos semelhantes, a eficácia bastismal se choca também com a noção de "Expiação Limitada", pois significa que alguns perdidos são afetados pela graça salvífica e, portanto, um dia, cobertos pela Redenção de Cristo.
Mas a Escritura nunca descreve o batismo como uma mera profissão de fé. O que a Bíblia claramente diz sobre o batismo é que ele é um sepultamento (Rm. 6:4; Cl. 2:12) e que através dele nós somos revestidos de Cristo e deixamos de fazer parte do velho mundo (Gl. 3:26-28). Por isso, deixamos também de estar debaixo da lei de Moisés (Rm. 6:4-6 + Rm. 7:4; Cl. 2:12-17).
Ora, o batismo é um sinal (sacramento) instituído por Cristo, através do qual nós nos tornamos seus discípulos, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Mt. 28:19). O batismo não foi instituído no nome de nenhum homem ou igreja, e por isso é irrelevante saber quem batizou ou em que igreja uma pessoa foi batizada. Do contrário, nenhum de nós jamais teria um batismo válido. O batismo não depende da fé ou da vida espiritual de quem batiza. Sua eficácia depende apenas do poder de Cristo (que nunca falha), e seu gozo depende apenas da fé de quem foi batizado (que não será decepcionada).
O lado coletivo do batismo aparece em Ef. 4:4-6, texto que perde o seu sentido se o batismo é entendido como uma confissão de fé individual, e não como um ato coletivo de participação em Cristo. A mesma idéia se vê em 1Co. 12:13, o qual, corretamente traduzido, não se refere a um “batismo no Espírito Santo” (como na Almeida), mas sim em que a ação de inserir os cristãos na Igreja através do batismo é uma ação do Espírito Santo (cf. vv.4-11). Aliás, no cristianismo, existem três posições principais acerca do Batismo no Espírito Santo:
(1) É idêntico ao Batismo nas águas [1 Co 12:13].
(2) É idêntico à conversão (adesão à fé cristã), [Efésios 1:13].
(3) É uma experiência posterior, de enchimento do Espírito Santo (não necessariamente acompanhada por "falar em línguas").
E essas três interpretações estão corretas. O Batismo no Espírito Santo é a graça acolhida na conversão, dada no sacramento (pela fé), e vivenciada no enchimento contínuo. Se nesta mesma carta aos coríntios, o apóstolo Paulo não assumisse o batismo com o sacramento que incorpora a uma igreja, não haveria qualquer motivo para criticar o divisionismo coríntio (“Eu sou de Paulo”) com a pergunta: “fostes vós batizados em meu nome?” (1Co. 1:11-16). Porque o nome no qual foram batizados indica aquele a quem eles pertencem.
Portanto, o batismo é um símbolo do Evangelho da graça e da justificação pela fé. Há quem chame a justificação inicial (ligada à conversão) de justificação batismal. O batismo preserva a verdade da justificação pela fé; não é a minha fé em si mesma, mas um ato exterior a ela (o batismo) realizado por outra pessoa (não por mim), por ação divina, que a capacita a herdar a ressurreição. A justificação pela fé deixa de ser um ato individualista de confiança interior e passa a ser um ato comunitário. Deixa de ser um ato humanista de profissão da própria fé para se tornar um ato divino de recepção de um pecador.
Como visto em Hb. 10:22, texto abordado anteriormente, para aproximar-nos de Deus, o coração purificado é acrescido do “corpo lavado com água limpa”. Essa “água limpa” provavelmente aponta para Ez. 36:25-27 (LXX), texto em que a purificação dos pecados é conseqüente à purificação com água. O mesmo ocorre também em 1Co. 6:11, em que um lavar-se em água é resposta para o pecado. Nós, que morremos com Cristo no batimo (Rm. 6:4), estamos absolvidos do pecado (Rm. 6:7), remidos dos pecados (At. 2:38). Unidos a Cristo, somos considerados justos por crer em Jesus e recebemos a vida de Deus, enquanto ele leva nossos pecados na cruz.
É natural, então, que todas as reações negativas às promessas bíblicas do batismo sejam eminentemente moralistas: como pode o batismo ser instrumento de vida nova, se tantas pessoas são batizados e não manifestam uma vida nova? Por outro lado, pessoas abraçam a fé cristã e já manifestam uma vida diferente. Mas como explicado acima, o batismo representa apenas o “sepultamento”; a vida nova aparece “pela fé” (Cl. 2:12). O mesmo ocorre em Gl. 3:26,27: nós nos tornamos filhos de Deus pela fé em Cristo, tendo sido primeiramente batizados; o batismo não garante a filiação espiritual, mas a possibilita.
Como bem sabemos, Jesus mandou que os seus servos batizassem aqueles que cressem no Evangelho (Mateus 28:19; Marcos 16:16) e os que creem são batizados para receber o perdão de pecados e a salvação (Marcos 16:16; Atos 2:38, 41; 22:16; 16:30-33). Mas essa não é uma obra de mérito para eles, porque é Deus quem opera: “… Deus os vivificou juntamente com Cristo. Ele nos perdoou todas as transgressões” (Colossenses 2:13). Ou seja, no batismo é Deus quem dá aos cristãos a vida, perdoando os seus pecados. É Deus quem opera a obra salvífica do batismo. O homem apenas deve se submeter ao ato pela fé e obediência ao Senhor (Mateus 28:19; Marcos 16:16), tal como os obedientes se submetiam à circuncisão que Deus operava pela mão dos homens na Antiga Aliança.
Infelizmente, porém, algumas pessoas recusam o batismo, dizendo que só a fé salva. Mas a fé que salva é uma fé obediente: “e, uma vez aperfeiçoado, [Jesus] tornou-se a fonte de eterna salvação para todos os que lhe obedecem” (Hebreus 5:9). E Jesus ordenou que aqueles que cressem fossem batizados: “Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado” (Marcos 16:16). Vamos obedecer ou nos rebelar contra a vontade do Senhor? A nossa salvação depende da obediência às ordens Dele (cf. João 14:15).
Como disse Tertuliano de Cartago, no século 2:
Em razão disso, aqueles criminosíssimos provocadores de perguntas dizem ‘Portanto, o batismo não é necessário àqueles a quem basta a fé; assim também Abraão agradou a Deus, sem nenhuma água, senão com o sacramento da fé.’ Mas, em tudo, as coisas posteriores concluem, e as coisas subsequentes prevalecem sobre as antecedentes. A salvação anteriormente foi pela fé nua, antes da paixão e ressurreição do Senhor; mas como a fé aumentou, aos crentes no seu nascimento, paixão e ressurreição, é ampliado o sacramento pelo selo do batismo, como uma vestimenta para a fé que antes estava nua, que já não pode salvar sem a sua lei. Pois a lei do batismo foi imposta, e a fórmula prescrita: “Ide”, ele diz, “ensinai todas a nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. A comparação dessa fórmula com esta lei: “A menos que um homem nasça da água e do Espírito, ele não poderá entrar no reino dos céus”, restringiu a fé à necessidade do batismo. De Baptismo 13
Nesse trecho, Tertuliano tenta descrever a posição contrária como a noção de que, se a salvação é pela fé, o Batismo se torna desnecessário. Tertuliano não nega a salvação pela fé, mas argumenta que ela não deve ser pela fé nua. O Batismo é como a vestimenta necessária á fé. Para Tertuliano, portanto, o Batismo é, ao menos, ordinariamente necessário à salvação.
Vejamos agora, alguns comentários ao Catecismo de Heidelberg:
Por que, então, o Espírito Santo chama o batismo “lavagem da regeneração” e “purificação dos pecados”?
É por motivo muito sério que Deus fala assim. Ele nos quer ensinar que nossos pecados são tirados pelo sangue e Espírito de Cristo assim como a sujeira do corpo é tirada por água. E, ainda mais, Ele nos quer assegurar por este divino sinal e garantia que somos lavados espiritualmente dos nossos pecados tão realmente como nosso corpo fica limpo com água.
— Catecismo de Heidelberg (1563), “O Santo Batismo”, pergunta 73.
É bem certo que o Catecismo de Heidelberg interpreta o trecho de Tito 3:5 (“lavar regenerador”) identificando-o ao batismo. Mas o que o catecismo quer dizer de fato com isso? Em sua pergunta 73, o catecismo nos apresenta uma identificação do símbolo com o que é simbolizado, do sinal com a realidade. Ora, para Zacarias Ursinus e Gaspar Oleviano, escritores do catecismo, era evidente que há uma identificação da lavagem batismal com água com a lavagem regenerativa no Espírito, de forma que o Batismo — sinal externo — nos lava com uma realidade interna — regeneração — , assim como nos lava o corpo com água.
Ursinus, em seu comentário ao catecismo, diz:
“Há três razões pelas quais as Escrituras falam, trocando os nomes dos sinais e das coisas significadas. A primeira é devido à analogia que existe entre o sinal e a coisa significada. […] Em segundo lugar, o Espírito Santo fala assim pela confirmação da nossa fé através do uso dos sinais: pois os sinais usados no sacramentos testificam a vontade de Deus para nós por causa da promessa anexa: “Quem crer e for batizado será salvo.” Mas por que o Espírito Santo fala assim pela confirmação de nossa fé? Porque no uso adequado dos sacramentos, a realidade e recepção dos sinais e coisas significadas, estão inseparavelmente conectados. […] A terceira razão, portanto, porque essa linguagem é empregada, é porque a realidade das coisas significadas está inseparavelmente conectada aos sinais usados nos sacramentos.”
Ou seja, parece que os teólogos tinham de fato a intenção de descrever o Batismo como uma lavagem de regeneração (como está escrito), onde o símbolo (água) leva à coisa significada (regeneração) de forma inseparável.
Ademais, a Bíblia diz que “os fariseus e os peritos na lei rejeitaram o propósito de Deus para eles, não sendo batizados por João” (Lucas 7:30). Os fariseus rejeitaram o propósito de Deus, recusando o batismo de João. Hoje, quando as pessoas argumentam contra ou tentam mudar o padrão bíblico do batismo de Jesus na Nova Aliança (batismo por imersão, em idade da razão, depois de ouvir o Evangelho, crer em Jesus e se arrepender de seus pecados), elas imitam os fariseus e os peritos na lei e negam o propósito de Deus.
O batismo é como uma estrada: embora digamos que uma estrada “leva a tal lugar”, na realidade quem leva é o carro que passa por cima da estrada e a usa como superfície de atrito e como indicação do caminho. O batismo é a estrada, pavimentada por Cristo, sobre a qual o carro da fé nos conduz à Jerusalém Celestial.
As duas alegorias bíblicas do batismo são o Dilúvio no Gênesis (1Pe. 3:20,21), como vimos anteriormente, e a travessia do Mar Vermelho no Êxodo (1Co. 10:1,2). Nos dois casos, a água é uma transição. No Dilúvio, uma transição entre um velho mundo condenado e um novo mundo. No Êxodo, é a transição entre o Egito (escravos sob Faraó) e o percurso à Terra Prometida. Os dois casos se encaixam perfeitamente na descrição de Rm. 6:1-8: sepultados nas águas do batismo, pela Cruz de Cristo somos libertados da “escravidão” do pecado do nosso “velho homem” (Adão) e levados a um novo mundo de liberdade. Nos dois casos, somente os que creram na promessa a herdaram (fé). Nos dois casos, assim como no texto de Romanos, algo sempre morre no batismo (Antediluvianos, Egípcios, Adão).
De fato, pode-se dizer que a Epístola aos Romanos reconta a história do povo de Israel em termos cósmicos: as promessas são feitas a Abraão (Rm. 4), o povo é escravizado e libertado (Rm. 5), o povo atravessa o Mar Vermelho e deve aprender a viver como livre (Rm. 6), o povo recebe a Lei (Rm. 7), e por fim, o povo recebe a terra prometida (Rm. 8).
2 Pedro 3:13. Nós, porém, segundo a promessa de Deus, esperamos novos céus e nova terra, nos quais habita a justiça.
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