Revestimento de poder e regeneração como obras distintas: A compreensão pentecostal tem embasamento na tradição cristã? - Por Jadson Targino
Não é novidade que a compreensão de que o Batismo com o Espírito Santo é uma obra divina distinta da Regeneração constitui uma tese fundamental ao Pentecostalismo. Como o grande exegeta Anthony D. Palma bem colocou: “os pentecostais sempre ensinaram que as pessoas tornam-se morada do Espírito na hora da conversão (Rm 8:9; 1 Co 6:19), mas que o batismo no Espírito é uma experiência do Espírito distinta de sua habitação no crente” e também Donald Gee: “o batismo [no Espírito] é bem diferente do novo nascimento”. Entretanto, alguns “teólogos [tradicionais] como Donald MacLoad dizem que não existe uma segunda experiência porque… [vêem o] silêncio de grandes teólogos do passado sobre esse assunto”.
Será mesmo que não existem evidências na antiquíssima Tradição Cristã que apontem para uma aceitação da distinção entre a experiência da conversão e o revestimento de poder (capacitação sobrenatural) para o serviço cristão? Penso que existem bons motivos para crer que a Igreja sempre compreendeu e aceitou essa distinção (que nada mais é que um dos pilares da Teologia Pentecostal) e um dos testemunhos que comprovam isso é o costume do Crisma, o qual será examinado nesse pequeno excerto.
Semelhanças entre o Batismo no Espírito Santo e o Crisma
Os pentecostais entendem que o Batismo com o Espírito Santo é “algo distinto do novo nascimento; significa o recebimento de poder espiritual para realizar a obra da expansão do Evangelho em todo o mundo, para uma vida cristã vitoriosa e também uma adoração mais profunda”. Em outras palavras, versa sobre uma capacitação miraculosa para desempenhar o ministério cristão. Penso que, de certa forma, cristãos de Igrejas Episcopais Históricas como os católicos romanos e os católicos ortodoxos, mesmo sem a doutrina da evidência física da elocução, subscrevem essa distinção das duas obras pneumatológicas, posto que entendem que o Batismo é o novo nascimento (Espírito concedido com finalidade soteriológica) e só no Crisma, algo posterior a essa primeira experiência da graça, o cristão recebe então o Espírito para capacitação para o serviço ministerial (Espírito agora concedido com finalidade eclesiológica e missiológica). Tal como o “Batismo no Espírito Santo” dos pentecostais, nas tradições já mencionadas o Crisma (ou Confirmação) trata-se de uma obra do Espírito distinta da regeneração (essa recebida no Batismo, segundo eles), também capacitadora para o ministério sagrado e destinada somente a aqueles que já foram salvos. Deixando de lado as semelhanças e agora falando das divergências, os pentecostais, diferentemente desses cristãos mais sacramentais, não veem a necessidade absoluta da imposição de mãos para recebê-la, tampouco a enxergam como uma graça sacramental dispensada por um sacerdote devidamente ordenado. Todavia, mesmo nas diferenças, é fato que há uma convergência na realidade de que se entende uma distinção de ações pneumatológicas na vida do crente. E essa noção de diferenciação das obras do Espírito nos cristãos, uma para capacitação e outra para salvação, é mantida até hoje por essas Igrejas Milenares porque há amplo testemunho dos Pais da Igreja embasando-as.
O que é o Crisma ou Confirmação?
Nas visões sacramentais, o rito externo da Confirmação consiste na imposição de mãos associada a uma oração de Invocação e Petição pela derramada do Espírito sobre a vida de um cristão. Conforme se lê nas Escrituras Sagradas: “Estes, ao chegarem, oraram para que eles recebessem o Espírito Santo, pois o Espírito ainda não havia descido sobre nenhum deles; tinham apenas sido batizados em nome do Senhor Jesus. Então Pedro e João lhes impuseram as mãos, e eles receberam o Espírito Santo” (At 8:15-17) e também: “E, impondo-lhes Paulo as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo; e falavam línguas, e profetizavam” (Atos 19:6).
Essa imposição de mãos é geralmente acompanhada pelo uso de um óleo de unção bem aromático (daí vem o outro nome dado a Confirmação, “Crisma”, de crismar, que significa ‘ungir com óleo’), elemento este que é o símbolo do Espírito Santo, embora não seja intrinsecamente necessário ao sacramento. O azeite ou óleo era um importante símbolo no AT (Sl 90:10, 132:2). Com ele, por unção se separavam os sacerdotes (Ex 29:2-23) e reis (1 Sl 16:13, 1 Rs 1:39). O próprio Messias seria ungido com o Espírito de Deus (Is 61:1-3) e aqueles que recebem o Espírito (1 Jo 3:24) tem a unção do alto (1 Jo 2:26-28).
O Crisma na história da Igreja
Pois bem, esse simbolismo foi absorvido e largamente utilizado pelos cristãos da Igreja primitiva. Tertuliano de Cartago (180-250 d.C.), por exemplo, relata: “quando saímos da fonte [do batismo], somos completamente ungidos com uma abençoada unção, derivada da antiga dispensação” (Sobre o Batismo, cap. 7). Hipólito de Roma (220 d.C.), por sua vez, indaga: “E que era o óleo, senão o poder do Espírito Santo, com o qual os crentes são ungidos como com unguento após a lavagem [do batismo]?” (Comentário em Dn 6:18). Também disse: “o bispo, impondo a mão sobre eles, deve fazer uma invocação, dizendo: ‘Ó Senhor Deus, que os fez dignos do perdão dos pecados através da lavagem do Espírito Santo até o renascimento, enviai a eles a tua graça, para que possam servi-lo de acordo à sua vontade, pois há glória a ti, para o Pai, e do Filho com o Espírito Santo, na Santa Igreja, agora e pelos séculos dos séculos. Amém.’ Então, vertendo o óleo consagrado em sua mão e impondo-a sobre a cabeça do batizado, ele dirá, ‘Eu te unjo com óleo santo no Senhor” (Tradição Apostólica, 21-22). No entanto, quem sistematiza definitivamente essa doutrina é São Cipriano de Cartago, que chega a ensinar: “A oração foi feita sobre eles e as mãos foram impostas… o Espírito Santo foi invocado e foi derramado sobre eles. Esta é até agora a prática entre nós, de modo que aqueles que são batizados na Igreja, em seguida, são levados para os prelados da Igreja, através da nossa oração e da imposição das mãos, eles recebem o Espírito Santo e são aperfeiçoados com o selo do Senhor” (Epístola 73 [72], 9).
No que se refere a Cipriano, creio que Hyatt sumariza bem a posição do bispo cartaginense. Ficam bem nítidas as semelhanças com a doutrina pentecostal:
Tornou-se clara a posição de Cipriano, segundo a qual o Espírito Santo é recebido APÓS uma evidente obra de regeneração. Para ele, a regeneração ocorre por meio do verdadeiro batismo, e a recepção do Espírito Santo vem logo após, pela imposição de mãos. Ele diz ainda: “pois aquele que foi santificado, que teve seus pecados lavados no batismo e renasceu espiritualmente como um novo homem, se adequou ao recebimento do Espírito Santo” … Cipriano compara os dois eventos, regeneração e recepção do Espírito, com eventos na criação divina de Adão. Adão primeiro foi formado, e só depois Deus soprou nele o Espírito da vida. Cipriano conclui que da mesma maneira a pessoa é primeiro nascida de novo e depois enchida do Espírito Santo: “Ninguém nasce pela imposição de mãos quando recebe o Espírito Santo, assim como aconteceu com Adão, o primeiro homem. Pois primeiro Deus o criou e depois soprou dentro de suas narinas o espírito de vida” (ênfases nossas).
Tanto para Cipriano como para o resto dos Pais da Igreja, o Batismo literalmente realizava o novo nascimento. Sem entrar no mérito se acertaram ou não, é fato que eles criam piamente na doutrina da regeneração batismal.
Como o historiador presbiteriano Philip Schaff, um dos maiores especialistas em História da Igreja que já existiu, bem pontua: “Essa ordenança [a do batismo] foi conhecida na Igreja Primitiva como o sacramento do novo nascimento ou da regeneração, um rito solene de iniciação na Igreja… [Para os pais] seu efeito consiste no perdão de pecados e na comunicação do Espírito… Na doutrina do Batismo nós temos muito maior base para falar de um Consensus Patrum [Consenso dos Pais] do que na doutrina da Ceia do Senhor” (ênfase minha). Ora, se os Pais – mesmo com a visão elevada do Batismo que possuíam – ainda enfatizavam uma outra oração com imposição de mãos pós-batismal para recepção do Espírito, naturalmente essa nova obra pneumatológica só poderia se referir a algo distinto do novo nascimento. Uma segunda e diferente experiência complementar e voltada para outro propósito. Além de fundamentação bíblica (cf. At 8:15-17; 19:1-8), vemos aí embasamento histórico para a distinção entre essas ações do Espírito em nós.
Enquanto teólogos tradicionais como Errol Hulse sustentam que o Batismo com o Espírito Santo é a regeneração: “fomos batizados e a “todos nós, foi dado de beber” referem-se à… conversão. Todos igualmente são batizados no corpo e todos igualmente bebem do Espírito Santo”, tanto pentecostais como cristãos primitivos diziam que primeiro se recebe o Espírito para a regeneração e depois se recebe o Espírito como revestimento de poder para o ofício de testemunhar de Cristo.
Controvérsias envolvendo o Crisma
Na época da Reforma, vários reformadores (dentre os quais encontram-se ninguém menos que J. Calvino) criticaram duramente o Crisma.
Os reformadores enfatizaram a recepção do Espírito para a salvação de tal forma que praticamente toda a obra do Espírito foi resumida a isso, um tristonho reducionismo. O pr. assembleiano Robert Menzies, nota isso de forma bastante perspicaz. Ele relata que na Igreja Católica Medieval “alguns afirmaram que enquanto o Espírito era dado no Batismo nas águas para a regeneração, na Confirmação [o Crisma], o Espírito era dado para equipar o crente para a batalha”, e também afirma que Calvino, junto a outros reformadores, por causa de sua ênfase no Batismo com o Espirito como a própria regeneração, rejeitaram o costume. A verdade é que não viam utilidade na mesma.
O teólogo genebrino chegou a chamar a Confirmação de “sacrílega ousadia” e ainda adicionou: “[Os papistas] inventaram que o poder da Confirmação é conferir o Espírito Santo para aumento de graça, o qual no batismo foi conferido para inocência, e firmar para a luta aqueles que no batismo foram regenerados para a vida” (Institutas, Livro IV, cap. XIX, 5). O motivo para sua dura crítica? Puro fundamentalismo, que em nada combina com o pentecostalismo. Ele questionava: “onde está a Palavra de Deus que aqui prometa a presença do Espírito Santo?” (Ibid), como se o Espírito estivesse preso ao que está escrito. Além disso, fornece uma resposta verdadeiramente esdrúxula para as passagens evocadas pelos seus oponentes para apoiar o Crisma. Chegou a dizer, para combater o uso de At 8:15-17 e 19:1-8, que “já cessaram aqueles milagres de poderes e aquelas operações manifestas que eram distribuídos por imposição de mãos, os quais não subsistiram por muito tempo” (Institutas, Livro IV, cap. XIX, 6. Ênfase minha). Calvino preferiu presumir a tese da cessação dos dons (mesmo sem qualquer base bíblica) do que ceder ao óbvio precedente bíblico que havia para o costume. Em outras palavras, somente apelando a essa doutrina antibíblica do cessar dos dons miraculosos é que poderemos fugir dos registros de imposição de mãos para a recepção do Espírito.
Destarte, depois do evento histórico da Reforma Protestante, os pentecostais (filhos legítimos desse movimento!) resgataram aquilo que foi indevidamente jogado fora por excessos dos reformadores. À saber, tanto o uso do óleo em orações (Tg 5:16) como a imposição de mãos para receber o Espírito criticada por Calvino e outros teólogos reformados. Detalhe: isso ocorreu espontaneamente, sem conhecimento da prática histórica do Crisma ou qualquer tipo de influência de denominações litúrgico-sacramentais. Isso não poderia ocorrer tendo em vista que havia uma mentalidade extremamente anti-católica nos círculos pentecostais nascedouros. Outrossim, não consigo enxergar tal reflorescer como outra coisa senão o mover do próprio Consolador.
Conclusão e aplicações
Levando em consideração tudo o que anteriormente foi exposto, não tenho dúvidas que o estudo da Teologia que está “por trás” do Crisma efetuada tanto por teólogos pentecostais como teólogos de Igrejas episcopais históricas é imprescindível para o resgate de riquezas que só tenderão a aperfeiçoar o diálogo saudável entre essas duas ricas tradições tendo em vista as pérolas em forma de convergências que já foram encontradas e ainda podem ser.
Como membro de uma denominação que pratica o Crisma (a Igreja Anglicana do Brasil), em minha opinião os crentes que levam a sério o trabalho do evangelista Lucas como teólogo e não somente como historiador (tanto em Igrejas Episcopais Históricas como Igrejas Pentecostais) devem resgatar não apenas a doutrina da evidência física das línguas (At 2:1-4, 10:43-47) como também devem valorizar sobremodo a doutrina da imposição de mãos para receber o Espírito. E uma ótima maneira de fazer isso seria preservando a belíssima tradição do Crisma, que não é inimiga do pentecostalismo senão que, ao contrário, mantém preservada na mentalidade dos crentes de forma prática a doutrina de que a regeneração e revestimento de poder são realidades realmente distintas e igualmente necessárias ao cristão.
Isso não seria tão difícil, posto que já é praticada de forma análoga nos cultos e congressos pentecostais quando ao final da ministração da Palavra pregadores por vezes chamam os cristãos a frente para receberem a imposição de mãos no intuito de receberem o Batismo no Espírito. Com efeito, seja lá como compreendamos esta experiência pentecostal em nossas próprias tradições, continuemos tão somente orando para que os nossos irmãos recebam o Espírito impondo nossas mãos sobre eles. A promessa deste dom é para nós, nossos filhos e todos mais quanto o Senhor Deus chamar (cf. At 2:39).
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