Fé imputada como justiça não é justiça imputada pela fé - por Rev. Gyordano Montenegro
A "imputação da justiça de Cristo" aos cristãos não aparece em nenhum lugar na Bíblia. Isso, por si só, não indica que a ideia seja falsa. Mas a questão se torna: se não é da Bíblia que essa ideia é extraída, de onde é?
Os textos que possivelmente mencionam a ideia de "imputar" justiça estão em Rm 4:3-6,9-11,22; Gl 3:6; Tg 2:23, além de Gn 15:6 (citado nos três capítulos). Nenhum desses textos menciona a justiça de Cristo, como sendo de algum modo imputada ou juridicamente contada em favor de alguém. Em comum acordo, eles dizem que a fé é imputada por justiça, ou seja, que o indivíduo é considerado justo por crer, e não que a justiça de Cristo seja imputada pela fé. Em outras palavras, o que é "imputado" é algo na própria pessoa (sua fé) e não algo que vem de fora dela (a justiça de Cristo). Isso é parte da linguagem do Antigo Testamento segundo a qual a fé e as boas obras de uma pessoa são "contadas" como justiça.
Algumas pessoas apelam para 1Co 1:30, segundo o qual Cristo se tornou, para nós, "sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção". Concluem daí que, se Cristo se tornou justiça para nós, isso deve significar justiça imputada. Não é difícil notar a falácia desse salto lógico, já que ninguém fala em "sabedoria imputada", "santificação imputada" ou "redenção imputada". Ao contrário, em vários lugares a Escritura nos ensina de como participamos da sabedoria de Cristo, da santidade do Pai, de como ele nos redimiu. O sentido do texto é, apenas, que Cristo é a fonte de todas essas coisas para nós. Nada há aí que indique ou implique "justiça imputada".
Outras pessoas apelam para 2Co 5:21, no qual alguns querem ver a dupla imputação ou troca de condição entre Cristo e os cristãos. As palavras do texto são: "Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus." Até aí, nada indica imputação, e algumas traduções protestantes até tornam impossível a ideia de imputação. Ocorre que o "nós", no texto, se refere aos apóstolos (coisa bem fácil de mostrar lendo os seis primeiros capítulos da carta). O sentido do texto é que os apóstolos se tornaram a justiça de Deus, isto é, ministros da justiça (cf. 2Co 3:9). Não há qualquer coisa no contexto que sugira "justiça imputada".
A preocupação por trás da "justiça imputada" é incorreta, pois é a preocupação de quem tem apenas medo da condenação, e não amor ao Senhor. A preocupação de quem tem amor ao Senhor é como amá-lo mais (portanto transformação real), e não como escapar do julgamento de um "Deus" severíssimo. É a preocupação de quem ainda está no estágio do temor servil, e não no amor divino que lança fora o temor do castigo.
A noção de "justiça de Cristo imputada" contradiz a doutrina, repetida dezenas de vezes no Novo Testamento, segundo a qual cada um de nós será julgado e terá o destino segundo suas próprias obras. Se o nosso destino corresponde às nossas obras, logo não corresponde à "justiça imputada". Uma coisa torna a outra supérflua. Não há acordo possível entre elas. Por isso, estão certos os defensores dessa "justiça de Cristo imputada" que negam a realidade do Juízo Final. Eles estão corretos em ver a incompatibilidade, embora, tristemente, estejam mais longe da verdade. Por esse mesmo motivo, correto estava John Wesley por considerar essa noção de "imputação da justiça de Cristo" como obstáculo na busca pela santificação.
A ideia de "justiça de Cristo imputada" (forense) foge da imagem mais bíblica de "justiça", que é a ação divina restauradora e salvadora, que coloca o mundo em ordem.
Conclusão: uma pessoa que acredita na imputação de justiça de Cristo aos cristãos, acredita nisso porque quer, e não porque tenha aprendido essa ideia na Bíblia.
"Filhinhos, não vos deixeis enganar por ninguém; aquele que pratica a justiça é justo, assim como ele é justo." 1 João 3:7
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