Uma visão equilibrada da Ordo Salutis - Parte 1
Os protestantes têm historicamente considerado sobre essa questão da ordo salutis (termo em Latim para “ordem da salvação”). A ordo salutis “descreve o processo pelo qual a obra da salvação trabalhada em Cristo é subjetivamente realizada no coração e na vida dos pecadores. Ela tem como alvo descrever a ordem lógica bem como as relações dos vários movimentos do Espírito Santo na aplicação da obra da redenção”.
A ORDO SALUTIS E A ANTROPOLOGIA
O estado da condição humana é algo crítico para a ordo salutis. O antigo axioma apresenta as nossas opções: falando em termos morais, o Pelagianismo diz que o homem está bem, o Semipelagianismo diz que ele está doente, o Agostinianismo diz que ele está morto. Se o homem está moralmente bem ou parcialmente debilitado, então ele pode cooperar com a graça de Deus para salvar a si mesmo (Catolicismo Romano). Mas se o homem está morto em delitos e pecados (cf. Efésios 2.1-3, 12), corrompido e debilitado não em parte, mas completamente, então a ele falta a habilidade de salvar a si mesmo. A salvação não deve ser entendida como sinergística, mas como monergística. Deus somente toma a iniciativa. Ele precisa conceder vida espiritual, substituindo corações de pedra por corações de carne (cf. Ezequiel 36.36). Colocando de forma simples:
todos os homens são concebidos em pecado, nascidos como filhos da ira, indispostos a fazerem qualquer bem para a salvação, propensos para o mal, mortos em pecados, escravos do pecado. E sem a graça do Espírito Santo regenerador eles não querem nem são capazes de retornarem a Deus para corrigirem sua natureza depravada ou se disporem para corrigi-la.
Refletindo sobre a condição humana, Cícero disse: “O homem é um desastre”. No histórico entendimento protestante, a salvação sempre foi uma obra maravilhosa e soberana exclusivamente de Deus e uma graça imerecida (cf. Efésios 2.8-9).
A ORDO SALUTIS COMEÇA COM DEUS
Dada a arriscada condição do homem, a ordo salutis tem que se originar em Deus. “A causa… não deve ser atribuída à dignidade (ou merecimento) de uma nação sobre outra ou ao melhor uso da luz da natureza; porém à mais boa vontade e ao gracioso amor de Deus”. Ele é a causa eficiente. “Pode, acaso, o etíope mudar a sua pele ou o leopardo, as suas manchas?” (Jeremias 13.23). Obviamente, portanto, “Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer” (João 6.44). Deus inicia a salvação e ele a faz com base em seu amor. Isto é, o amor dele é a causa que move e que impulsiona. É somente à graça, ao favor, à boa vontade e ao “gracioso amor” de Deus em Cristo que nós devemos a nossa salvação.
Se Deus é o autor da salvação, o Espírito Santo é o agente da salvação, unindo-nos à pessoa de Cristo e aplicando a sua obra em nós. “A atividade do Espírito Santo é, portanto, nada além de aplicativa. A ordem da redenção é a aplicação da salvação (applicatio salutis)”. Assim como o Filho veio para glorificar o Pai, o Espírito Santo, por sua vez, glorifica o Filho. E ele o faz “até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo” (Efésios 4.13)[13].
A causa instrumental ou o meio pelo qual nós conhecemos a salvação é o evangelho, a Palavra de Deus. A salvação vem da Palavra. Embora a revelação natural nos ensine sobre Deus, ela somente é insuficiente para uma fé salvadora (cf. Romanos 1-3). Nós temos que encontrar pessoalmente a Cristo através de sua Palavra (revelação especial) e colocar nossa confiança nas promessas objetivas do evangelho (cf. Romanos 10.14-17).
Como vimos, ela simplesmente busca responder aquelas perguntas que guiaram Martinho Lutero e a Reforma Protestante. Isto é, como eu encontro um Deus gracioso e como eu obtenho os benefícios da graça adquiridos por Cristo? A seguir, apresentamos um esquema equilibrado a respeito dessa ordem, sem entrar em assuntos mais misteriosos como a eleição, a predestinação e se o plano de salvação já existia antes mesmo da queda do homem:
- Chamada
- Iluminação
- Arrependimento
- Regeneração
- Justificação
- União Mística
- Santificação
- Conservação
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